
Desencanado do trabalho, como todo mortal, Rafael Castro achou melhor deixar de lado essa coisa de acordar cedo e aguentar o patrão, bater cartão, enfim. Só por não gostar do que fazia, “parece que minha cabeça não funcionava direito”, diz. A música sempre correu em suas veias, desde muito pequeno, quando ouvia pelo rádio as paradas de sucesso. Sabia que aquele era o seu caminho. Fã de gibis despretensiosos, Rafael segue, mesmo sonolento, seu sonho rumo ao sucesso.
A adolescência perturbada induziu ainda mais o rapaz para o cenário musical. Aos 16 anos compunha suas canções, embalado pelo coro evangélico. Na época morava em Ibiúna, grande São Paulo. Não conhecia ninguém, não ia para a escola, não praticava esportes. Nada estava bom. Procurar uma igreja evangélica foi a salvação de Rafael. “Eu estava doidão, doente da cabeça, não conseguia sair de casa, sei lá... Síndrome do Pânico, essas coisas...”
A partir das músicas evangélicas, tão na moda hoje, sonorizou suas composições e hoje prepara seu oitavo CD independente, que não é gospel: é música de alta qualidade.
A seguir, uma desencanada entrevista, concedida a Megazzine.
Megazzine: Você é ligado à religião?
Rafael Castro: Sou Evangélico batizado, mas não pratico. Não acredito e não gosto. Eu morava em Ibiúna, não conhecia ninguém e não conseguia ir na escola, aí falei: Vou na igreja. Eu preciso de Deus, tô mal e ele vai me salvar. Fui na igreja, fiz amizades, frequentei por um ano, acho, e me batizei porque rolava um monte de música evangélica legal. Depois mudei pra Lençóis e não tinha mais os amigos da igreja. Ai me questionei e achei meio bobo isso de ir pra igreja. Em Ibiúna era um pessoal pequeno, umas oito pessoas, e era um lance de trocar idéias, não era aquela coisa mercadológica como é por aí.
Megazzine: E te ajudou?
RC: Sim, me ajudou, conheci aquela moçada e com isso comecei a tocar mais e me salvei.
Megazzine: As composições dos CDs são todas de sua autoria?
RC: As composições são todas minhas.
Megazzine: De onde vem a inspiração?
RC: Vem das conversas, sempre rola um tema bom pra desenvolver junto aos amigos.
Megazzine: Como funcionou a produção dos CDs?
RC: Não queria fazer esses papos de álbum mesmo. Pensei em fazer uns disquinhos assim: começo, meio e fim. Até agora são oito finalizados até abril.
Megazzine: Como foram gravados?
RC: A gravação é bem simples. Gravo num local sem acústica, num quarto normal. Sem qualquer aparelho pré, sempre o som cru, capto com microfone de PC. Depois eu trabalho em cima da produção com programas, plugins, e outros. Ai faço toda a mixagem do trabalho.
Megazzine: Em quanto tempo?
RC: Demoro aproximadamente seis meses pra finalizar nesse esquema.
Megazzine: O você acha da política cultural do país?
RC: Acompanho a política superficialmente. No que diz respeito à política cultural nacional acho que está rolando bonito, tá ficando legal. Tenho contato com bandas e sempre rola uns festivais, uns projetos, e a galera esta sempre amparada por alguma Lei de Incentivo. Com essas leis tem rolado coisas boas por aí e tem vindo até bandas de fora do país.
Megazzine: Como pintou o nome da banda que te acompanha?
RC: Eu quis favorecer mesmo os caras que tocam comigo. Numa brincadeira eu havia colocado Rafael Castro seus Escravos e o Henrique. Esse nome a gente usou pra tocar numa festa da Unesp, em Ilha Solteira. Foi de última hora. Mas o Henrique não gostou da brincadeira. Passado isso, resolvi fazer a antítese e coloquei os Monumentais.
Megazzine: O que pegou em SP, já que você morou lá por um tempo e voltou para Lençóis?
RC: Pegou que torceram o nariz, os caras diziam: nunca ouvi falar, pra que vou colocar isso no meu bar, não vem ninguém. Lá os caras recebem pilhas de CDs toda hora e não dá pra ouvir tudo. O que eles querem é knowhal, querem nomes conhecidos. Daí não rolou. Ficamos três meses e não arrumamos nenhum show. Só que fizemos uns amigos e a moçada começou a espalhar, a indicar a banda nos bares e preparar o terreno. Mas isso aconteceu quando a gente já estava aqui em Lençóis.
Megazzine: Como chegaram a participar do festival da Trama Virtual? Estar em SP ajudou a vencer?
RC: Não sei se isso ajudou em alguma coisa, mas durante um festivalzinho em São Paulo eu cheguei a sentar com os caras da Trama e falar um monte de porcaria, até tirar os caras: “Isso aí não vira nada não”, disse, meio revoltado. Acho que entramos porque teve alguém que indicou forte, porque é muita banda participando, né cara?
Megazzine: Por isso o nome de vocês rolou na internet?
RC: Tudo que rolou na internet sobre a banda foi após termos participado do festival da Trama. Era muita banda participando e ficamos para a final. Ganhamos com a apresentação que eles proporcionaram, e que serviu como referência para gente se apresentar em outros lugares. Tendo uma referência começou a ficar melhor o cenário.
Megazzine: Como você vê o espaço na WEB?
RC: Isso da internet é um pouco de ilusão, na verdade não funciona ainda. São poucas pessoas que acessam e vão atrás de bandas novas. A net acaba servindo mais como um meio para o cara ver sobre o artista que ele já conhece. Procurar coisa nova, mesmo, são poucos que fazem. Isso porque tem coisa muito ruim, cara. E tem pouca coisa boa.
Megazzine: Você acha possível estourar na mídia, morando no interior?
RC: É possível sim, sem sair daqui dá para fazer sucesso. Basta ter grana para bancar os jabás, entrar na grande mídia, TV, essas coisas.