EDIÇÃO #03 - A volta do maquinista


Benedito Arlindo de Resende, 64 anos, sentiu a sensação de ser um trabalhador especial há cerca de três meses, quando, depois de 14 anos de aposenta-doria, e já ingresso na melhor idade, recebeu o convite para voltar ao trabalho, emuma empresa de transportes ferroviáriosde porte internacional.
Hoje, ele é supervisor da via ferroviária e ajuda os funcionários menos experien-tes a lidar com as dificuldades do dia-a-dia.

“A experiência faz com que a gente resolva os problemas sem medo, porque sabe o que dá certo. A teoria é muito importante, mas o conhecimento é fundamental”, ensina.

O trecho de Benedito é longo. Percorreu incontáveis quilômetros, sediado em Lençóis Paulista, Paranhos, São Manuel, Agudos, Botucatu, Bauru e Ourinhos, onde se aposentou.

O exemplo de Benedito poderia servir de case para qualquer agência especializada em orientar futuros profissionais sobre como construir uma carreira. De braçal, Benedito não chegou a presidente da empresa, mas buscou qualificações, que elevaram sua posição a cozinheiro, guarda, auxiliar de ma-quinista, e finalmente, maquinista, sua atividade preferida, por oferecer a possibilidadede conhecer lugares e pessoas.

Da época áurea do transporte ferroviário, Benedito se lembra da festa que eram os vagões de passageiros. Enquanto o trem rodava, para evitar acidentes, verificava principalmente nas curvas, a presença de faíscas ou fogo entre os trilhos. Com parte do corpo para fora, podia recebera saudação de quem estava dentro ou forado trem em movimento.

O último trem de passageiros entre São Paulo e Prudente correu até os anos de 1980. E o transporte nos trechos entre Araraquara e São Paulo, e Sorocaba e São Paulo, é o que resta.

Mas, um dia em especial ficou na memória do maquinista, e foi justamente o dia em que o trem não passou. “Era 15 de novembro de 1976, quando os trens pararam decircular. Antes disso, houve comentários,mas ninguém acreditava, porque o povo usava muito o trem naquela época. Mas, quando chegou o dia 15, tinha um trem que passava em Paranhos às 9h da manhã, então todo mundo ficou esperando na estação. Entretanto, naquele horário, o trem não passou. Naquele dia os passageiros ficaram esperando também em outras estações, mas nenhum trem passou”, recorda.

Mas não foi só de emoção e alegria queo maquinista construiu sua história profissional. O medo era constante, ao conduzir locomotivas que traziam, atrás de si, em mé-dia, 1.500 toneladas cada. “Com essa carga,os trechos de declive e aclive se tornavammuito perigosos. Principalmente em trechosde serra, como em Botucatu. Qualquer falha ali seria fatal”.

Dos acidentes que sofreu, o maquinista destaca a felicidade de jamais ter tido perdas humanas, e apenas lamenta os danos materiais, com orgulho de, em todos os ca-sos, nunca lhe ser apontada falha pelos acidentes ocorridos.

O pior acidente que presenciou, ainda como assistente, foi o primeiro: um suicídio inevitável. O formato do trem proporcionou que o assistente visse o rosto do jovem no momento do atropelamento. O acidente ocorreu em Piracicaba.

“Quando chegamos em uma curva da ponte histórica, tinha um rapaz em pé nos trilhos. O maquinista buzinou, mas o rapaz não saiu. O maquinista mandou eu ver o que tinha acontecido depois, então uma mulher que morava próximo perguntou o que tinha acontecido. Eu descrevi o rapaz, que usava uma bermuda, com a camisa vermelha jogada nos ombros. A mulher disse que o conhecia e entrou em desespero”, conta.

As lembranças são muitas, por isso acomparação com a tecnologia atual é inevitável. Um exemplo é a troca dos stafs (bastões que autorizavam a circulação entre asestações) com o GPS, que posiciona a composição, esteja onde estiver.

O período de aposentadoria serviu, segundo Benedito, para que ele desse ainda mais valor ao trabalho. Mas, enquanto a volta não vinha, comandar uma outra máquina - o fogão, ajudou a evitar o adoecimento. As massas, inclusive os pães, são a especialidade do cozinheiro/maquinista, que confessa ter aprendido o que sabe ainda criança, sob a tutela da mãe, que fazia questão que os filhos aprendessem a arte culinária.

O cuidado com uma horta comunitária, cultivada em uma área pública, próxima à sua residência, também ajudou durante o período de sua aposentadoria.

Atualmente, o grupo supervisionado por Benedito percorre o trecho entre Lençóis Paulista e Bauru, mas ele garante: “Até quando Deus quiser, e me tolerarem na empresa, eu vou ficando”.
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