EDIÇÃO #01 - Cristo não chorou

Sexta-feira, 15h45 da tarde. Atores esperam impacientes o início da quadragésima apresentação da Paixão de Cristo, em Macatuba. São aproximadamente cem pessoas envolvidas no evento maior da igreja católica.

Centenas de pessoas da cidade e da região se espremem nos limites do palco montado na rua.

A história da morte e ressurreição de Cristo é mostrada valorizando passagens marcantes do contexto. Uma criança, que ainda não sabe bem o que aconteceu naquela época, consegue, mesmo que superficialmente, vislumbrar o sofrimento nos acontecimentos destes dias. Doses de realismo são colocadas em cena e os atores interpretam, com destreza, suas incumbências.

Jesus mudou a história da humanidade pregando a bondade e o amor. Seguida por mais de dois milênios, sua história se repete ano após ano, quando é lembrada às vésperas da Páscoa. Especialmente.

Para o cristão católico a emoção toma conta de cada passagem. Nas ruas de Macatuba podia-se facilmente perceber esse sentimento. Pessoas de todas as idades não escondiam as lágrimas, escorrendo pelos rostos.

Um misto de adoração, fé, religiosidade. Mas pode ser ainda mais: imaginar o ato de traição de Judas, o sofrimento de Jesus e a própria Via Crucis nos remete ao dia-a-dia comum: a banalidade da vida por poucas cédulas de reais ou por bens de consumo não está tão distante das moedas de ouro daquela época. Até a traição nos é presente. São inúmeras as notícias sobre corrupção e desvio de verbas por parte dos nossos governantes. Os mesmos que são eleitos por nós para nos defender ou defender nossos interesses comuns. E quanta miséria ainda persiste em cada esquina. Essa talvez seja a maior traição que sofremos.

Lembrar a ressurreição de Cristo é ressuscitar todos os dias com o coração pleno de amor e dignidade. Seguir seus preceitos de bondade, independentemente da opção religiosa, nos remete a ver o próximo com outros olhos.

Na sexta-feira Santa deste ano, em Macatuba, isso foi mostrado com maestria. E assim terminou mais um dia.

B.M.

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